2014-01-02

a minha mulher casou-se há 5 anos...

... e o melhor disso é que foi comigo. Não estou a tentar ser engraçadinho. É muito fácil dizermos "quero casar contigo" e depois até podemos ir lá ao registo, e ao copo d'água e isso tudo, mas depois estarmos quase 2000 dias juntos sem nos estrafegarmos é obra. Tudo bem, ok, não terão sido sempre dias côr-de-rosa, e se calhar um ou outro dia enterrávamo-nos no trabalho só para não aturar a má disposição do outro, mas ao fim deste tempo todo eu olho para os outros homens todos e, com algum desprezo - e alguma vergonha de sentir esse desprezo, mas enfim, é a vida - digo "ehehe não foram vocês que casaram com ela, fui eu! Tomem lá disto, seus nabos!"

Senão, vejamos: quais são as características que definem a mulher ideal? Depende do homem, dirão vocês em coro. E eu rejubilo, pois gosto muito de coros. Pois bem, ficava-me bem dizer que a Susana tem todas as características da mulher ideal para mim. Mas não é a verdade, e eu não sou mentiroso. A verdade, se quiserem mesmo saber, é que não sou um idealista, logo não tenho um ideal de mulher perfeita, até porque a perfeição não existe, é uma utopia inalcançável que muito facilmente nos leva à frustração por nunca lá podermos chegar.

Então porque é que sou o homem mais feliz do mundo por estar casado com ela? Esta é daquelas perguntas que já contêm a resposta: sou o homem mais feliz do mundo porque estou casado com ela. Porque todos os dias são familiarmente diferentes. Porque encontramos rotinas e imediatamente as desfazemos. Porque nos apoiamos e fortalecemos. Porque construimos a família mais fantástica que há memória na humanidade - tirando os Kelly Family. Porque nos fazemos rir.

E porque a Susana de hoje passou mais um dia comigo do que a Susana de ontem, logo leva mais pontos. Por isso, se quiserem, a mulher perfeita, idealmente, seria a Susana velhinha, depois de uma vida inteira comigo, rodeada dos nossos netinhos, já com os pés para a cova. Hehe, isto não fez muito sentido, devo estar maluco.

"Tás. Tamos. Devemos estar. Isso interessa?"

Parabéns, meu Amor. Hoje faz 5 anos que tocaste baixo no teu casamento. Se eu soubesse, tinhas também tocado o Bolero de Ravel na flauta. Amo-te buésda!!

2013-08-01

20 anos de Second Reality

subtítulo: a história de como um .exe criou uma amizade

No dia 1 de Agosto de 1993, em Helsínquia, durante um evento de arte digital (www.demoscene.info para quem não estiver dentro do assunto) foi apresentada, em competição, a seguinte obra de arte:


Second Reality, dos Future Crew. Não vou falar sobre a demo em si, já foi dissecada, analisada e venerada por muitos. Aconselho a visualização, é óbvio, especialmente para quem nunca teve essa experiência.

Vou falar sim da maneira como me tocou, como alterou o curso da minha vida e fez com que conhecesse e privasse com gentes e culturas que nunca pensei que viesse a ter contacto. Vou falar de como esta demo influenciou os meus gostos e produções artísticas. Mas, como não podia deixar de ser, vou falar do Paulo.

Quando o meu colega da primária, vizinho e amigo Rui me telefonou a pedir ajuda, não fazia ideia da importância histórica que aquele contacto teve. Obviamente que não. A minha mãe deve dito "Jorge, telefone!! É o Rui Vasco!" - digo deve ter dito, porque foi há quase 20 anos e é normal eu não me lembrar exactamente de tudo - e fui a correr atender. A minha família tinha um telefone de botões, que na altura ainda não era muito comum, e ainda por cima era vermelho. Brincávamos com isso, era a nossa "hotline". Do outro lado, o Rui pedia ajuda com uma música. Música? Agora fazes música? Mais ou menos. Tens de cá vir. Mãããããe, posso ir a casa do Rui? Podes, mas não te demores muito. Tá beeemmm.

Lá fui. Saí de casa, atravessei o matagal, passei por baixo da auto-estrada e embrenhei-me no bairro. Quando entrei em casa do Rui, e depois de cumprimentar a Ziza, vi o Paulo. Achava que já o tinha visto numa festa de anos do Rui, mas não podia ter a certeza. Magro, de poucas palavras, impressionava-me a maneira como nunca tirava os olhos do monitor do computador, mesmo a escrever no teclado. E a rapidez com que escrevia! Mas, mais que tudo, não conseguia tirar os olhos do imenso sinal que ele tinha junto à boca. Nunca tinha visto nada assim. Segundo as regras de boa educação, disfarcei o melhor que pude e concentrei-me naquilo que tinha vindo fazer.

"Estamos a tentar fazer uma música." O quê, num computador? Sei lá eu como é que isso se faz! Nem sabia que era possível... Quer dizer, possível é, lá nos Estados Unidos devem ter computadores do tamanho de salas e que custam milhares de contos! Mas... aqui? Neste computador pessoal? "É muito fácil, temos este programa, Scream Tracker III, feito por uns finlandeses... foram os que fizeram a Second Reality". OK, isso é tudo muito bonito, mas estão a falar chinês. Podem explicar melhor?

E explicaram. Mostraram-me a Second Reality, uma espécie de videoclip de música electrónica, com gráficos espantosos, nada a ver com o Pacman ou o Tetris. Isto tinha cores incríveis e parecia qualquer coisa feita em Hollywood. E a música era fantástica! O início parecia John Williams, meio sinfónico, meio electrónico... "E isto está a correr em tempo real, significa que o computador está a calcular tudo o que aparece no ecrã ou o que ouves nas colunas *enquanto* estás a ver."

Depois de recuperado do choque inicial, a pergunta óbvia. Mas como é que isto é feito? "Programação. Matemática. Tentativa e erro. E muita carolice." O Paulo sorria, e entredentes percebia a minha admiração. Porque é que alguém dedicava o seu tempo livre a tentar fazer o impossível? Porque é que não ia jogar futebol, ou ia à praia, ou ao cinema? O que é que levava alguém a ficar em casa, sentado ao computador durante horas, a tentar arranjar maneiras de fintar as limitações de um computador do início dos anos 90?

A resposta é complexa mas fácil de entender. Primeiro, tem de haver um incentivo para ficar em casa. Na Finlândia, assim como nos outros países da Europa do Norte, onde a demoscene é mais forte, faz muito frio. Ir à praia quando estão -15 ºC não é muito convidativo. Segundo, são países com um nível de vida muito superior ao nosso, pelo que o acesso à tecnologia foi desde sempre mais fácil e massificado. Terceiro, muitos destes jovens entusiastas dos computadores - também conhecidos por geeks e/ou nerds - não se sentem muito à vontade a socializar, pelo que por questões de conforto preferem fazer algo que não envolva a interactividade com humanos. Mas, e mais relevante, o amor à arte. A expressão humana elevada ao mais alto nível. A necessidade obsessiva de comunicar uma ideia.

O Paulo era assim. Ele tinha praia, se quisesse. E jogámos futebol juntos muitas vezes. Mas a atracção pelo computador e pelo compilador era mais forte. Era a melhor maneira que ele tinha de se expressar. Ele não era como aquelas pessoas que não sabiam falar, antes pelo contrário, tinha um discurso muito coerente e sabia ser assertivo. Era capaz de sintetizar e veicular uma informação de maneira eficaz. Quanto às emoções, isso são outros quinhentos paus. Aí, era nas demos que víamos e fazíamos que conhecíamos melhor o Paulo. Falava com mais ternura de bytes do que de pessoas.

Também éramos jovens. Os rapazes de 13 anos não falavam de sentimentos entre eles. Isso era abichanado, e já bastava eu andar no ballet.

Naquela tarde, eles insistiram que eu me familiarizasse com o software e compusesse a música para uma intro que eles estavam a fazer. O Paulo já tinha feito uns acordes e umas batidas, eu tinha de continuar e melhorar o que já estava feito. Mas eu não tenho placa de som no meu computador! Não faz mal, levas uma emprestada, vamos estar em Londres durante duas semanas, não vou precisar. Epá, obrigado Rui, mas eu não sei montar isto. Nós ajudamos-te. Que cena!! A sério? Olha, e arranjas-me uma diskette com aquela demo que me mostraste? Claro!

Lá instalámos a Sound Blaster no meu 386 (só passado uns meses é que comprei a minha Gravis UltraSound) e desde então nunca mais parei de fazer música no computador. E de instalar coisas nos computadores. E de ver a Second Reality, de preferência em loop.

(Incidentalmente, quando o Rui comprou um Pentium, montou na cave o 486 dele e durante ANOS correu a Second Reality em loop. Sem som, por causa dos vizinhos, e muitas vezes com o monitor desligado, mas aquilo só parava quando havia um corte de electricidade ou quando um bug de alocação de memória fazia com que o programa encravasse.)

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Pouco tempo mais tarde, o Paulo contou-me que foi por causa da Second Reality que se tornou um demoscener. Ainda antes do aparecimento da Internet, no tempo das BBS's, as pessoas trocavam ficheiros e mensagens, um pouco como nos actuais fóruns online. Quando viu a demo, ficou siderado, e não descansou enquanto não descobriu como é que aquilo se fazia. Depois, contagiou uma (pequena) imensidão de gente por este país fora, eu incluído.

Quando fui estudar para a Holanda, comecei a frequentar as demoparties estrangeiras. Conheci pessoas dos quatro cantos do mundo, desde os Estados Unidos à Austrália - direcção leste, claro está. Na sua maioria, eram autênticos cromos dos computadores, de óculos grandes e má postura corporal. Outros eram góticos, ou punks, ou oriundos de qualquer sub-cultura alternativa. E outros eram normais, coitados. Mas todos tinham essa paixão avassaladora pela arte digital. E essa paixão era mais forte do que as inibições sociais, por isso fui fazendo amigos e criando laços com aquela gente. De início, parecem estranhos e esquisitos, mas depois de os conhecer é malta muito fixe. Quer dizer, de modo geral... porque há mesmo gente flipada.

Em termos técnicos, a demoscene é pioneira. Sempre esteve à frente no que diz respeito à tecnologia e às técnicas usadas, muitas vezes criando standards que algumas indústrias, como a dos videojogos, foram depois adaptando. Mas foi do ponto de vista estético que mais me relacionei. Quando era puto, ficava de boca aberta a ver os anúncios na televisão, a ver as letras das marcas dos produtos a aparecer e a desaparecer no ecrã. Achava aquilo espectacular. E quando comecei a ver demos fui moldando os meus gostos e paradigmas estéticos. A minha concepção de movimentos de câmara, de composição espacial, cromática e rítmica tem tanta influência de filmes como tem de demos. E na produção musical isso é muito claro também. O meu gosto eclético vem das mais variadas músicas que fui ouvindo, ao longo destes 20 anos, nas produções da demoscene. Desde o italo-tecno ao idm, passando pelo jungle e noise, ou mesmo pelo speed metal. Ah, e jazz. Os acordes que ouvia nas cassetes que o Rui e eu gravávamos, directamente do computador, ainda hoje os uso e abuso. Sem querer estabelecer comparações, fui tão influenciado pelo Keith Jarrett e pelo Beethoven como fui pelo Jeroen Tel e pelo Andrew Saga.

E tudo isto por causa de uma demo. Uma centelha num vazio cósmico que incendiou toda uma sucessão frenética de eventos que compõem a minha vida.

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Não consigo evitar de pensar no simbolismo do facto de ter sido no ano em que se comemoram os 20 anos da Second Reality que o Paulo desapareceu. Geralmente, não gosto de efemérides, mas esta tinha de ser, por tudo o que ela representa. Não é só por ser um número redondo, não me lembro de ter festejado efusivamente o décimo aniversário. Tem que ver, essencialmente, pelo facto de ter perdido o Paulo recentemente, e também por a nossa amizade estar tão ligada a esta demo.

Gosto de pensar que foi uma amizade bem vivida. Que, apesar de ter estado longe durante parte desse tempo, que foram 20 anos bem espremidos. É a única maneira de aceitar que ele já não responde aos meus emails, que não me manda mais SMS's. Hoje, que é 5ª feira, seria dia de nos juntarmos para ver demos. E de certeza que veríamos a Second Reality, brindariamos com chá de maçã e canela ao seu vigésimo aniversário.

A demoscene entrou na minha vida sem pedir licença, e trouxe o Paulo com ela. Ou foi o contrário? Não sei ao certo. No entanto, tenho a certeza que ambos ficarão comigo para sempre. Como diz o chavão, "the scene is dead". Ele também. Mas cá dentro isso não é verdade.

Happy birthday, Second Reality!

I AM NOT AN ATOMIC PLAYBOY!!!!!!

2011-10-28

Curta II

No outro dia, inventei uma piada. A minha mulher desmanchou-se a rir, teve mesmo dores abdominais e fui obrigado a levá-la de urgência ao Hospital da Luz, com ameaça de parto. Felizmente, não estava grávida e correu tudo bem.

Fora de portas, a piada não causou sensação. Não sei porquê. Queria testá-la online para saber se é mesmo fraquinha ou se, por outro lado, sou mesmo um péssimo contador de piadas. Até as minhas.

Cá vai:

"Era uma vez um tipo disléxico e uma amnésia que sofria de outro homem..."

Curta I

A minha mulher gosta de blogues. Ela gosta de ver blogues no computador, mas também no telemóvel. Até já comprou revistas só com blogues. Além de ver blogues, ela gosta de os fazer. Queria só dizer que gosto muito que a minha mulher faça blogues.

2011-03-06

Linux

Há algumas semanas que utilizo diariamente um sistema operativo chamado UbuntuStudio, que é baseado na distribuição mais comum de Linux, o Ubuntu.

Até aqui, referi "sistema operativo", "Linux" e "distribuição". Mesmo que não percebe nada de computadores entende o que estou para aqui a escrever, certo?

O que dizer? Tinha um computador que estava a ficar obsoleto, lento e falível, e agora tenho uma máquina sempre afinada, rápida e segura. A diferença de performance é muito notória, especialmente quando estou a trabalhar em áudio. É fantástico, Mike.


Por acaso, tenho uma destas a 100 metros de minha casa. Mas não interessa para agora. O que interessa é que a rapidez e facilidade com que instalei o sistema operativo fizeram-me pensar que qualquer pessoa poderia facilmente adaptar-se ao Ubuntu. Assim, gostava de exortar-vos a experimentar este sistema operativo, basta correr um programa de instalação e não vão perder o vosso Windows nem os vossos documentos, isto corre num bocado de espaço livre que tenham no disco.

Podem fazer o download aqui.

Não se esqueçam, Linux é de borla!!! Estamos em tempos de crise, pensem nisso!!

2010-11-26

A greve e o monstro

Na passada quarta-feira fiz greve. Fui até ao Rossio para me juntar a outros manifestantes que, dessa maneira, fizeram saber que estão descontentes com a maneira como o poder político é regularmente corrompido pelo poder económico, afectando directamente a nossa independência financeira e, ulteriormente, a qualidade de vida de maior parte da população.

Houve quem não fizesse greve.

Até aqui tudo bem. Até digo mais, os números discrepantes entre o governo e os sindicatos nada me dizem, porque em consciência vos digo, isto está tão mau que perder um dia de salário seria uma desgraça para muitos trabalhadores, isso e o medo de ser despedido ou ser impedido de progredir na carreira.

O que me custou foi ler e ouvir pessoas (que, julgava eu, seriam esclarecidas) afirmarem a inutilidade da greve. Ou que não havia razões para convocar uma greve. Ou pior, a menosprezarem o sindicalismo e os que lutam pelos direitos dos trabalhadores.

É tão triste, não por perceber até que ponto vai a ignorância das pessoas, mas por saber que a mudança de mentalidades é um objectivo infrutífero, impossível de realizar, inalcançável. É como tentar encher um balde furado.

As pessoas não são burras, são alienadas. Enquanto são alegremente depenadas por facínoras corruptos, continuam a votar neles porque aparentemente os bloquistas são uns ganzados, os comunistas comem criancinhas, os centristas são demagogos que gostam de submarinos... e só sobram as laranjas e as rosas.

Não acho que seja detentor da verdade suprema. Não sou o tipo mais informado que existe. Inclusive, nunca fui muito activo politicamente, para desconsolo parental. Mas sinto-me revoltado por irem-me ao bolso tão descaradamente. Ser pai faz com que a segurança financeira esteja na ordem do dia para poder proporcionar ao nosso filho tudo aquilo que achamos que ele mereça. É, portanto, lógico que me insurja contra tudo isto e que fique triste e desolado com a situação.

Porém, não vou desistir. Ainda que cabisbaixo, irei arranjar forças para continuar esta luta.

Uma luta de ideias mas, acima de tudo, de ideais.

2010-10-21

O povo é sereno, é apenas fumaça

Desculpem lá, mais um post na blogosfera sobre o Orçamento de Estado. Reparem, utilizo maiúsculas, personalizando assim o documento. Eu explico: neste momento, ele é mais importante de se encontrar que a Maddie alguma vez foi.

Estes cortes anunciados que vão degradar - e de que maneira - a economia portuguesa e, consequentemente, a qualidade de vida de todos os portugueses que não estão no parlamento, nos ministérios, nas administrações dos bancos, das grandes empresas e lobbies (ah, e os outros ricos, claro) são severos e, segundo o governo, absolutamente necessários.

Gostava de realçar, agora mesmo, a fantástica capacidade de José Sócrates e seus camaradas - pode dizer-se camaradas, mesmo sendo do PS? - de convencer um País inteiro desta farsa. A mestria com que usa a metáfora, a metonímia, a ironia e demais recursos estilísticos é absolutamente genial. Dia após dia, o circo dos media apresenta um espectáculo digno da Royal Academy of Shakespeare, em que temos um punhado de senhores a entreter os outros 10 milhões...

... e nós a vê-los.

Existe um país, neste continente, onde foram realizadas 6 (SEIS) greves gerais num único mês, onde para fazer valer as suas ideias os sindicatos organizaram mais de 250 manifestações por dia, onde os trabalhadores bloquearam o acesso ao combustível e os estudantes lutaram pelos seus propósitos.

Acho que ninguém gosta de violência nem de atentar contra os ideais democráticos, mas há que aplaudir a força de vontade e mobilização dos franceses.

O mais irónico disto tudo é que eles não estão a lutar porque o IVA sobe 3 pontos percentuais num ano, enquanto os deputados andam em carros topo de gama; ou porque cortam nos benefícios fiscais às famílias carenciadas enquanto os grandes gestores acumulam fortunas em offshores; não, nada disso.

Eles estão furibundos porque a idade da reforma vai aumentar 2 anos. Para os 62.

SESSENTA E DOIS ANOS.

...

Sem querer desvalorizar a luta gaulesa, que desde o Astérix sempre souberam defender-se bem (as riscas verticais emagrecem mais que as horizontais, toda gente sabe isso) não há dúvida que, em comparação com este pequeno País à beira mar plantado, a diferença de exploração do povo e a correspondente reacção atinge níveis de comicidade elevados. A disparidade da força da luta pelos próprios interesses aproxima-nos dos países chamados de terceiro mundo, onde ficam contentes se tiverem farinha para fazer pão e uns trocos para tabaco.

Faz-me lembrar um episódio que aconteceu na Holanda, quando lá vivia, em que os maquinistas dos caminhos-de-ferro fizeram uma greve porque saiu uma directiva que, para atingir melhores níveis de eficácia, atribuía um percurso apenas para cada trabalhador, em vez de eles poderem percorrer os diversos percursos pelo país e pela Europa. Chamavam-lhe "Rondje om de kerk", volta à igreja, e acharam um atentado aos seus direitos e fizeram greve. Resultado: o governo retrocedeu.

Se não fosse a sério, tinha piada. Já dizia o outro.

Fico estarrecido com a falta de mobilização deste povo. Um pouco à imagem da canção Movimento Perpétuo Associativo, dos Deolinda, o povo vai dizendo "agora não, que joga o Benfica" e vai-se queixando muito, falando mal, mas fazendo pouco ou nenhum. Entretanto, o desemprego passou dos 10%, a economia vai cheirando como um cadáver em decomposição - à semelhança dos sapatos de quem já não pode comprar uns novos - e esta gente junta-se toda para ver o Tony Carreira ou ir à bola.

Mas o que é isto? Anda tudo a dormir?!

Na verdade, quem tinha razão era o Almirante Azevedo, de facto "o povo é sereno" e para ilustrar isso tentem perceber, hoje, se se fala mais da crise ou do facto do Benfica ter perdido. Depois digam qualquer coisa.

2010-09-14

Sim, eu ligo ao futebol II

Assisti ao debate do "Prós e Contras" na RTP1 sobre o caso Queiroz e o futuro das instituições futebolísticas em Portugal. Concluí que:

- O Queiroz até pode ser um excelente treinador, mas não tem condições para continuar;
- O Madaíl até pode ser um excelente dirigente, mas não tem condições para continuar;
- O ADop até pode ser um excelente organismo, mas os seus dirigentes não têm condições para continuar;
- A Fátima Campos Ferreira até pode ser uma excelente moderadora, mas não tem condições para falar sem interromper os outros.

Além disto, subscrevo a opinião do Presidente da Associação dos Treinadores, parece que este país não tem com que se preocupar e está tudo a falar e opinar sobre esta matéria, quando os intervenientes é que deviam estar a falar, mas UNS COM OS OUTROS e não a lavar a roupa - suja ou não, já não sei - na praça pública.

Com todo o respeito pelos advogados, economistas, jornalistas, autarcas, gestores e sabe-se lá mais o que fazem os senhores que estiveram no programa mas que não têm nada a ver com o futebol.

ps: eu, que não nutro especial afeição pela TVI começo a admirar a coragem que o canal de Queluz de Baixo teve em produzir um programa semanal de comentário desportivo com - imagine-se! - ex-futebolistas, ainda que, na altura em que jogavam, um deles passasse o tempo a cair e o outro a dar cacetada, geralmente no que andava sempre a cair. Toda a gente sabe que os futebolistas só sabem falar de futebol e gajas, como é que vão encher um programa de mais de duas horas só com isso? É preciso abordar a problemática da politização incomensurável das instituições tuteladas por organismos pseudo-independento-desportivas, e dois pintos não chegam, precisamos de galinhas cacarejadoras.

ps2: sim, estou a descascar nos programas de "debate" desportivo. (É só inveja, eu também gostaria de ir para lá ganhar uns euritos a dizer bacoradas.) No entanto, numa escala de 0 a 20, esses programas valem um 10 na boínha, porque precisamos de atribuir 5 aos programas dos desgraçadinhos e tertúlias, 2 aos passatempos telefónicos das madrugadas e -2348 ao programa do Rui Santos.

ps3: também não gosto do Pedro Rolo Duarte. Não tem nada a ver, mas pronto. É para ficarem a saber. Ah, e também não gosto da maneira de falar do António Macedo, irrita-me profundamente, especialmente às 8 da manhã.

ps4: isto é que não tem mesmo nada a ver, mas alguém sabe quando sai a PS4?

2010-09-08

Sim, eu ligo ao futebol

Porque gosto do desporto, ainda que não concorde com a maneira como é dirigido pelas instituições desportivas e governamentais. Mas isso é outra história.

O que queria mesmo dizer é que estou desencantado com a Selecção Nacional, tal como todos os Portugueses. Tanto, que não tarda estou a tirar as maiúsculas à equipa.

Quando o FC Porto perde - raríssimo acontecimento - sinto uma tristeza contida; porém, sigo confiante no colectivo e na filosofia que O Nosso Querido Líder imprime no clube há mais de 30 anos. Sei que com este novo treinador seremos campeões durante três ou quatro anos seguidos - o costume - e tudo está bem.

Com a Selecção, é diferente. Ela é transversal aos bairrismos e clubismos estúpidos. Lampiões, lagartos e dragões - sem esquecer os arsenalistas - estão unidos e prontos a apoiar os Eleitos. A verdade é que quando este tipo de coisas acontece (para quem vive no mundo da Lua, ou não liga ao futebol, ou vive no mundo da Lua e não liga ao futebol, Portugal empatou com Chipre 4-4 - com quem nunca tinha empatado ou perdido - e perdeu com a Noruega 1-0 - com quem nunca tinha perdido) parece que o País todo esmorece. Nós sabemos que temos bons jogadores, que são dos melhores nos respectivos clubes, sabemos também que estão habituados a jogar sob pressão - caso Queiroz, caso Ronaldo, caso Bosingwa, caso Caso - e não compreendemos como estas coisas acontecem. Já sei que, amanhã, o IC19 vai estar entupido e as queixas de violência doméstica vão ter um pico inexplicável. Pronto, agora já não é inexplicável.

Em 2004, fomos vice-campeões europeus. Em 2006, ficámos em quarto lugar no Mundial. Estamos em oitavo lugar no ranking mundial da FIFA. Bolas, será pedir demais que se ganhe ao Chipre e à Noruega, 63º e 22º no ranking? Será pedir demais que possamos ter uma qualificação tranquila, sem ter que hospedar a competição para a garantir? Se for, digam, porque assim prometo que me naturalizo espanhol e acaba-se a brincadeira.

A direcção da FPF há muito que devia ter ido comprar tabaco. E não voltar. Além das fracas prestações da Selecção AA, também a Selecção sub-21 falhou o apuramento para o Europeu, a semana passada, ao perder o jogo com a Inglaterra. Pá, demitam-se! Demitam os responsáveis! Porque é que não há chicotadas psicológicas na Selecção?

Pessoalmente, e como castigo, acho que deviam ser adoptadas as chicotadas, não as psicológicas, as físicas mesmo. Só não dêem o chicote a um jogador português. O mais provável é ele errar o alvo.

*** Este artigo não foi escrito ao abrigo do acordo ortográfico. Quero que o acordo vá passear. ***

2010-07-05

a sociedade não é social

E isto pode querer dizer muita coisa. Acho eu. Pelo menos, é tão aparentemente absurdo que se calhar nem faz sentido, ou então faz vários sentidos.

O Priberam, que é o dicionário online que mais uso - sim, eu uso um dicionário, prefiro assumir a ignorância do que pespegar crimes contra a gramática e a ortografia neste sítio; mesmo que seja a ortografia à antiga, com p's e c's no meio das palavras - dizia eu que o Priberam diz isto sobre a palavra "social":

- Que tem tendência para viver em sociedade.

Ora bem, esta tendência tem vindo a decair, qual consumo de vinho do Porto, afectado pela crise, e tal, mas que não explica porque raio estamos a escolher uma vida em que é mais fácil comunicarmos pela internet do que frente a frente. Hoje em dia, a palavra "social" aparece mais vezes ligada à palavra "rede" do que à expressão "beber um copo numa de". (Isto deve fazer mais sentido em algumas partes do país do que noutras...)

Não me queixo do facebook, do msn, do orkut, do linkedin, do twitter, do last.fm, do hi5, do livejournal, do netlog, do... podem ver a lista na wikipedia que eu não me importo. Mas estava ainda agora eu a dizer que não me importo que as redes existam, aliás, eu sou um utilizador de não uma mas várias destas redes. Acho-as maravilhosas por permitirem o contacto quase em tempo real com pessoas que não vejo há muito tempo e que estão no outro lado do planeta.

Mas não me lixem e me mandem mensagens pelo facebook a dizer que estão a 20m de mim a comer um pastel de nata. Porque não me vão buscar e oferecem-me um lanche? Vá, se for preciso rachamos a conta ao meio.

Porquê evitar o contacto físico? Porquê eliminar a comunicação com entoações e respirações? Nunca vos aconteceu estar num café com alguém e encontrar um amigo que não viam há muito tempo e por meia dúzia de palavras perceber que ele não anda bem e que deviam ligar-lhe mais vezes e talvez convidá-lo para jantar na semana que vem depois do jogo? Ou mesmo convidá-lo para ver o jogo? Isto só é possível se estiverem lá fora, longe da vossa bolha confortável sem fios.

Sou um acérrimo defensor das novas tecnologias. Por mim, punha um chip em tudo. Até no meu filho. Com um emissor GPS. Mas não invalidaria que quisesse estar com ele a todo o momento, vê-lo crescer, talvez até ensiná-lo a fazer trivelas, e nunca prescindiria do contacto físico, do frente-a-frente, de umas caneladas e puxadelas quando ele começar a correr mais do que eu.

E preferir isto a jogar PES é o correcto, minha gente, desliguem lá o computador e vão beber um copo à vossa saúde. Mandem um tweet quando chegarem.